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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Escreva Bem, o curso, em novo formato

Desde que dei pela primeira vez o curso Escreva Bem, Pense melhor, na Casa do Saber em São Paulo, procurei entender a necessidade das pessoas para poder ajudar melhor. Além de assistir às aulas, elas sempre pediam por um atendimento mais personalizado, isto é, aplicado ao que faziam. Dessa forma, resolvi mudar o formato do curso, para poder ler o trabalho de cada um, avaliar seu estágio de desenvolvimento, orientar o texto e também o caminho para a publicação.

Para isso, conta muito minha bagagem como jornalista, editor e também autor. Como editor de jornal e revistas, passaram por mim milhares de textos de grandes profissionais nos veículos onde trabalhei, como Veja, Exame, O Estado de S. Paulo, tanto no meio impresso quanto digital. Como editor, na Saraiva publiquei obras de autores consagrados, best sellers e também autores novos, que lancei por meio do Prêmio Benvirá.

Foi um grande sucesso. O vencedor do prêmio, Oscar Nakasato, ganhou mais tarde também o Jabuti de Literatura com Nihonjin. Raphael Montes (suicidas, Dias Pefeitos) com apenas dois livros e 24 anos hoje é publicado em 13 países, dos Estados Unidos à China. Pelo menos uma dezena de outros autores estão  no mercado comercial oriundos dessa iniciativa.

Para as aulas presenciais, escolhi uma sala no espaço Florescer, no Pacaembu, em São Paulo, um lugar agradável onde as pessoas poderão refletir comigo sobre o trabalho de escrever e trocar experiências. Ali também será o ponto de partida para o coaching (atendimento individual). A ideia é receber a orientação na quarta-feira e ter toda a semana para trabalhar em um texto próprio, que já exista ou que se pode começar a escrever.

Escreva Bem foi criado com base na minha experiência de trinta anos de edição. Não é um curso de ortografia, nem de gramática. É um exercício de organização do pensamento, ponto de partida para, como eu digo, "pensar no papel". Escrever em si não representa dificuldade alguma - é digitação. Escrever são as ideias, como as organizamos, como as criamos e como fazemos para tornar o importante também interessante, além de adequado ao público que desejamos. Será um prazer colaborar com todos os que estiverem por lá. Inscreva-se!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Lições para escrever, número 1

Naquele tempo eu trabalhava como editor assistente de Economia da revista Veja; para chefiar a seção, pouco tempo antes viera, deslocado de Internacional, o jornalista Fernando Pacheco Jordão. Profissional experiente, talentoso e simpático, um desses raros homens com quem trabalhar se pode dizer que também é um prazer.

Em Veja, especialmente nas quintas e sextas-feiras, trabalhávamos até muito tarde; o dia era gasto na apuração das notícias, o que significava ir além do que informavam os jornais; nossa função era explicar melhor, revelar os bastidores, fazer o leitor entender de maneira mais ampla ou profunda o que acontecia na sua própria vida e no mundo ao redor. Escrever era uma atividade que nos aproximava dos bombeiros, guardas noturnos e outros profissionais da noite. E não podiámos errar: ter que reescrever uma matéria significava um desastre, porque frequentemente nos levava a sair do trabalho somente de madrugada ou mesmo no dia seguinte pela manhã.

Fernando tinha uma particularidade; quando não sabia direito por onde começar uma matéria, começava por qualquer lugar; em algum momento, chegava à conclusão sobre o que era mais importante; nesse instante, voltava para o começo de tudo, depois punha o texto em ordem. Na maior parte das vezes, porém, ele me deixava escrever a reportagem, depois de dar alguma orientação.

Talvez pela tranquilidade com que confiava nesse método, certa vez eu e ele nos demos mal – mais eu do que ele, é claro. O governo acabara de anunciar um aumento do salário mínimo. A seu pedido, escrevi uma longa peroração sobre os efeitos que isso teria na economia, onerando contas públicas e a previdência social. Isso, dizíamos, apesar do benefício inicial para a população, geraria uma reação em cadeia que causaria prejuízos na frente, com o aumento da já elevada inflação.

No final, para não dizer que tínhamos deixado de mencionar o assunto, escrevi um pequeno box, quase um rodapé, sobre o problema da classe média, que teria de se virar para pagar a empregada doméstica. E lá fomos levar a matéria para José Roberto Guzzo, diretor de redação, que fazia a leitura final das reportagens mais importantes da nossa seção.

Com sua aparente bonomia, seu ceticismo permanente, e sua ironia fatal, Guzzo leu nossa obra, coçando a cabeça. Ao final, decretou:

- Muito bom – disse. – Vocês fizeram mesmo uma bela matéria sobre economia. Agora façam ela virar o box. E o box virar a matéria. O leitor não está interessado nas contas do governo. O problema dele é a empregada doméstica.

Saímos de lá; olhando para Fernando, com aquela cara, comecei a escrever tudo de novo. Mas Guzzo tinha razão. O leitor de Veja, que é de classe média, olhava primeiro para o próprio umbigo, ou melhor, o bolso: antes das grandes decisões da política e economia, a revista tratava do interesse pessoal e direto do leitor. A economia tinha um efeito retardado, ou secundário; aquela medida primeiro afetava o público da revista já no salário do fim do mês. O resto, ainda que relevante, ficava em segundo lugar. Cometeramos ali um erro de avaliação, tomando como base nossa própria cabeça de jornalistas e o que achávamos importante, mas para nós.

Conto essa história como exemplo de como é essencial pensar sobre o que vamos escrever, antes de escrever, e avaliar essas questões, antes de tomar uma decisão. Lição número 1 do livro Escreva Bem, Pense Melhor, e do curso com o mesmo nome, que tenho ministrado: escrever é, antes de mais nada, pensar. É preciso primeiro definir o que é importante, para balizar tudo o mais.

Essa decisão é fundamental, e nela pesam dois fatores. Um é o que achamos importante, a notícia, ou o que faz a diferença. Nem sempre é fácil entender o que é o mais importante, novo, ou fazer a síntese do que precisamos dizer já de saída. O outro fator, não menos importante, é pensar em quem o texto se destina; para isso, é preciso conhecer o público leitor, seus interesses e prioridades.

O sucesso de Veja, no seu auge, sempre se baseou nesses dois pilares: os temas que achávamos importantes, e que marcavam a posição da revista, mesclados aos que interessavam diretamente o leitor. Essa combinação é que criou um público leitor fiel, que fez Veja se tornar a maior publicação do Brasil e a quarta revista semanal do mundo em circulação.

A imprensa foi para mim um exercício permanente da escrita; além de escrever todos os dias, exige pensar o tempo todo no que é mais importante. O texto jornalístico pede cotidianamente a organização das ideias, de modo que o texto comece pelo mais importante e vá se desenvolvendo de forma lógica, encadeada e interessante até o final. Mesmo quando comecei a escrever ficção, esse exercício ajudou; não importante o assunto, ou o gênero, o que nos faz escrever melhor é sempre o pensamento organizado. Com o tempo, não importa o assunto, passamos a escrever cada vez mais rápido e melhor.

Toda vez que nos deparamos com algum tema, há sempre formas diferentes de tratá-lo ao escrever. A decisão é nossa. O leitor, porém, é que vai julgar. Ninguém escreve somente para si mesmo; nenhum homem é uma ilha, especialmente quando se trata de comunicação.